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sábado, 2 de março de 2013

O Satânico Dr. Fleury







Inspiração – Sérgio Muniz


O precursor do esquadrão da morte tinha suas peculiaridades quando se tratava de combater os “subversivos”. Nunca houve diálogo, só brutalidade. Havia uma sensação de invencibilidade por parte do delegado mais influente do período militar. Maliciosamente chamado de "O Papa", tinha em Fininho seu principal parceiro  --Fininho, que tinha em um chaveiro, uma orelha, arrancada de uma de suas vítimas, que ele ostentava com rompantes de alegria.



Dentre seus métodos perversos: violentou uma menina de 11 anos (Eloísa Cristina, filha de Nair Cristina); Lindalva, uma assistente social ligada a arquidiocese de São Paulo, que teve seu corpo perfurado por cinco tiros, seu seio direito arrancado, cortes por todo o corpo com uma gilete, marcas de agressão por todo o corpo, além das marcas das algemas; amputação de membros, quando o interrogado se recusava a cooperar. 

Demonstrava seu eterno racismo ao se referir às suas vítimas, como “negro vagabundo” ou “Paraíba,morre quieto”.



 Houve outros casos constrangedores.

Há quarenta anos, ocorria, em São Paulo, uma situação típica do esquadrão. Fleury, que chegou a receber a Medalha do Pacificador (acredite!), dada pelo Exército, e um diploma de Amigo da Marinha, condecoração da Pasta naval. Herói do regime do AI-5, Fleury ganhou a condição de personalidade inatacável, graças a seu empenho na caça de opositores do governo, que eram submetidos a torturas nos porões do aparelho de repressão. Acusado de envolvimento com quadrilhas que promoviam o tráfico de drogas, Fleury parecia ostentar uma situação privilegiada, daquelas que transformam uma pessoa numa fortaleza de impunidade.
Foi então que, no rastro de investigações a respeito do Esquadrão da Morte, o procurador Hélio Bicudo deu com o assassinato de um bandido chamado "Nego Sete" - dali, chegou em Fleury. Foi em 1968, quando Bicudo iniciou seu processo, pelo qual sofreu perseguição atroz. Crime que o delegado sempre negou.

 Algumas das táticas eram: desfigurar o cadáver para não ser identificado ( no caso dos guerrilheiros do Araguaia, jogaram os corpos juntos com pneus e atearam fogo), alvejar o morto com vários tiros, para que na autópsia não se descobrisse quem atirou primeiro. As torturas contra mulheres grávidas, tendo seus órgãos genitais severamente machucados era praxe, também. E, é claro, o Capitão Lamarca, que para ele foi o maior troféu.

                               ( Lamarca e um companheiro de luta)


O DOPS tinha, inclusive, um coveiro oficial: Alcides Cintra, indicado por Romeu Tuma que, ao contrário de Fleury, sempre conseguiu camuflar sua participação ativa nos meandros do DOI-CODI.

Enquanto isso, a seleção brasileira cuidava de distrair, convenientemente, os 90 milhões em ação, jogando a Copa de 70. Com certeza, Sérgio Paranhos Fleury torcia para a seleção canarinho vencer a Copa, já que isso abriria caminho para um nacionalismo exacerbado e alienante, ajudando em seus “negócios” (tráfico e consumo de drogas, corrupção, abuso de autoridade, tráfico de influência, participação de esquemas que visavam forjar exames para aprovar colegas, lavagem de dinheiro, assassinatos, torturas, mutilações, etc).

Paradoxalmente, nas dependências do DOI-CODI era possível ler:
OBEDIÊNCIA
ORDEM
DEVOÇÃO
HONRADEZ
AMOR à PÁTRIA
São as etapas que levam à liberdade

Em 1971, o produto interno bruto cresceu 9%. Mas somente 18% da população  sentia seus efeitos; os demais sentiam o arrocho salarial vendo o capital internacional vir apenas explorar e acumular.



 Alheio a isso, Fleury e sua gang continuavam com sua sangrenta repressão policial, apoiados pela sociedade conservadora que dava respaldo à existência do Esquadrão.

E não estavam sós. O CCC (Comando de Caça aos Comunistas), a TFP (Tradição Família e Propriedade) eram apenas algumas das instituições que apoiavam de maneira contundente (com perseguições e delações) o governo militar.



 Fleury, Fininho, Alberto Barbour e Cia se sentiam como reis. Seus métodos recrudesciam e, não obstante o maciço apoio inicial da classe média, da Igreja Católica e de boa parte da imprensa, freiras e padres (como o Reverendo Giulio, de SP),  filhos de famílias abastadas e muitos jornalistas entraram para a lista de “ subversivos”. Isso significava mais alvos em potencial. Só aí, os idiotas de plantão, que saudaram o regime como algo libertador (!!) perceberam a arapuca em que se meteram. Um pouco tarde para tamanha epifania.

O presidente americano Richard Nixon, outro celerado,  além do apoio logístico (mandava homens da CIA para ensinar técnicas de tortura), também cedia armas aos bandidos travestidos de policias.

 Fleury era um homem de hábitos. Passava pelo DOPS quase todos os dias às 5, onde estavam encarcerados os suspeitos de sempre, escolhia algumas vítimas, os fuzilava na estrada e os jogava numa quebrada qualquer. Costumava dizer aos detentos: “Você dá um presunto legal”.

                                            (sua última foto)


O delegado-mor do esquadrão se dizia católico e afirmava dar “orientação cristã” aos filhos. Que gratificante da parte de alguém que de católico deve ter aprendido bem as táticas de tortura da Inquisição.

Seu assassinato, quer dizer, seu conveniente acidente em Ilha Bela (foi passar de uma lancha ancorada para outra, escorregou, caiu, bateu a cabeça e morreu afogado) deu às Forças Armadas o devido sossego em dias turbulentos que se avizinhavam: a “abertura, lenta gradual e irrestrita”, onde  o ex delegado poderia, eventualmente, causar embaraços. Também causa estranheza que não se tenha realizada uma autópsia. Mas não causa nenhum espanto que tanto o Bradesco, quanto Folha de SP tenham mandado flores ao enterro, afinal, ambas as empresas apoiaram indiscriminadamente as ações do delegado homicida.

  Como bem descreveu Percival de Souza em seu fantástico livro "A Autópsia do Medo" : "Fleury representava a personificação da violência de um sistema arbitrário".

 Mas foi uma das marionetes mais úteis do regime. 


4 comentários:

  1. Ainda existem pessoas que defendem a ditadura militar, até mesmo o jornalista gaúcho Luis Carlos Prates, que possui opiniões interessantes, mas que, infelizmente, disse que naquele tempo não havia criminalidade e ele exercia sua profissão sem restrições...Claro que essa opinião tem um alcance restrito...Não podemos nos centralizar somente em nós mesmos, senão a coisa fica parecendo conversa de comadre e não uma matéria jornalistica....Não dá pra ser a favor de um regime onde a a lei e a ordem eram mantidas pelo medo, restringindo todos os direitos constitucionais....Apoiando o regime, está justificando suas carnificinas, dizendo que elas valeram a pena....Um tremendo descuido por parte desse jornalista...
    Mas deixando isso de lado, naquela época eram muitos os facínoras covardes iguais a esse, com problemas mentais e de ereção, ...Qualquer regime que dá a um sujeito desses plenos poderes pra usar suas insanidades, é tão louco quanto ele...quem apoia a ditadura, querendo ou não, apoia esses vermes...
    Abração

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    1. Apoio 100% seu comentário, Marcos. Pena que muitas pessoas nas redes sociais, desencantadas com o cenário político atual, confundem as coisas e remetem seus comentários alienados àquele período nefasto, como se fosse uma tábua de salvação. Eu respeito opiniões diversas, mas qdo alguém defende a ditadura, fico puto! Assino embaixo do seu comentário lúcido e preciso, como sempre. Seja bem vindo de volta, meu amigo. Se for recriar o seu blog coletivo (OPINIÃO HUMANISTA) me avisa, valeu? Um abraço

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  2. Foi uma época terrível. Eu me lembro que, na escola, não podíamos questionar determinados assuntos. A professora chamava no canto e dizia baixinho: "não faça isto, não fale aquilo!" Era a personificação do medo.

    Já li vários artigos que abordam as atrocidades desta época. Em um deles dizia que o CCC dopava as pessoas, as colocavam em um avião e, em pleno alto mar, as atiravam lá de cima. Lembro do reboliço que deu na rua quando um sujeito soltou o cachorro em um cara do TFP. Ele corria com aquela bandeira vermelha desesperadamente, enquanto pelas gretas da janela, os adultos torciam para aquela turma não voltar mais.

    Medici, Geisel e Figueiredo. Eu tinha medo destes caras como se tem medo de assombrações, fantasmas e capetas.

    Valéria

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    1. Pois é Valéria, concordo com vc. Estas figuras execráveis assustavam com sua postura truculenta e os desmandos. Liberdade e democracia para eles eram uma berração. E Fleury era o arauto dos militares, fazendo o serviço sujo, inclusive fazendo o papel de bandido. Por isso os alienados de plantão dizem que naquela época não havia criminosos. Claro, pois os verdadeiros usavam distintivos para traficar, lavar dinheiro assassinar, tudo em nome do país. Espero que esse período nunca seja esquecido. Obrigado pelo seu comentário.Um abraço

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