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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Atentado do Riocentro






 Gonzaguinha pede a atenção da plateia de 20 mil pessoas e comunica, pausadamente: "Durante o espetáculo, explodiram, eu disse explodiram, duas bombas." Em seguida, como se lê no texto em destaque nesta página, faz um breve discurso em favor da democracia e daquele evento - o show "1 de maio", que acontecia por seu terceiro ano consecutivo. Aquela fala dita em 30 de abril de 1981 carrega  na ênfase da repetição da palavra "explodiram", na ideia da democracia não como uma dádiva natural, mas sim como algo que deve ser conquistado, na reação calorosa do público em aplausos e urros confirmando essa ideia - o calor daquela noite histórica, que agora completa 30 anos, lembrada como a noite da bomba do Riocentro, na qual um atentado frustrado matou um sargento que levava o artefato no colo.


 Um registro sonoro que poderá ser ouvido num CD que chegará às lojas em breve, mostrando o que aconteceu no palco enquanto a História se desenrolava do lado de fora do pavilhão.

A fala de Gonzaguinha - momento em que se estabelece de forma mais contundente a relação entre o show e a bomba - ocupa apenas alguns segundos da gravação. Uma breve pausa num evento que celebrava muitos dos artistas mais populares e representativos da MPB de então. A fita que originou o CD foi encontrada pelo pesquisador Marcelo Fróes no arquivo do Instituto Cravo Albin e traz apenas uma parte da noite. Estão lá Gal Costa, Moraes Moreira, MPB-4, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Gonzaguinha e Gonzagão.


- Tenho uma parceria com o Instituto Cravo Albin para lançar gravações de seus arquivos pelo meu selo, o Discobertas, que lançará esse registro do Riocentro - explica Fróes, lembrando como encontrou a fita. - Estive lá um dia, no fim do ano passado, e ocasionalmente vi essa fita de rolo na estante. Tinha uma etiqueta na qual estava escrito apenas "1 de maio". Eu já tinha as gravações das edições anteriores, de 1979 e 1980, e fui ouvir a fita ansioso para que fosse a de 1981, inédita. E era. Show de 1981 foi o último da série.


O pesquisador chegou a pensar em lançar uma caixa com as três edições do evento - aquele show de 1981 foi o último da série, organizada pelo Centro Brasil Democrático (entidade ligada ao Partido Comunista Brasileiro, então na ilegalidade). Mas desistiu:
- A gravação de 1980 chegou a sair em LP, mas a de 1979, que tenho em fita, é muito ruim, não dá para lançar. Preferi trabalhar, então, somente com essa fita de 1981. Moraes Moreira ficou muito entusiasmado com a fita. Mandei para ele sua gravação para que pudesse ouvir e ele me respondeu: "Não sei como vai ficar sua masterização, mas essa está ótima. Cuidado para não estragar".


O registro do show de 1981 ouvido pelo GLOBO, ainda sem masterização, tem realmente a qualidade compatível com a de outros registros ao vivo feitos na década anterior - e tornado clássicos, como o CD "Caetano e Chico - Juntos e ao vivo" ou "Barra 69". E a noite do Riocentro tem, é claro, a inegável força de documento histórico. Portanto, acredita Fróes, ele pode e deve ser lançado.- Sou daqueles que acreditam que cada imagem conta uma história, ou, no caso, cada som. Existem coisas muito preciosas em arquivo, como essa, que contam uma parte da História do país - defende.





O pesquisador Ricardo Cravo Albin, que estava no Riocentro naquela noite, acrescenta:
- É importantíssimo resgatar o som que testemunhou esse grande momento histórico.
Beth Carvalho, que foi testemunha privilegiada daquele episódio, como uma das atrações da noite, também reforça a importância do lançamento do CD:
- Foi um momento histórico no país. Se aquela bomba realmente explodisse, ia dizimar uma grande parte da música popular brasileira. Esse registro vai emocionar as pessoas que sabem que somos sobreviventes daquele episódio. Eu estava cantando e o leite escorria do meu peito. Naquela época, eu amamentava minha filha Luana e só saí de casa naquela noite porque era um show de cunho político, o Dia do Trabalhador, de que sempre faço questão de participar - diz a cantora, que comandará, no próximo 1 de maio, o "Show do Trabalhador", realizado na Quinta da Boa Vista.Leia a íntegra da reportagem no GLOBO Digital (apenas para assinantes)


Fonte: ( O GLOBO )

O ATENTADO

A explosão ocorreu dentro de um automóvel puma, na noite de 30 de abril de 1981, com a bomba no colo do Sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, cuja morte foi instantânea. Ao lado do sargento, no volante, estava o Capitão Wilson Luiz Chaves Machado, o qual, ato contínuo, sai do Puma segurando vísceras à altura do estômago.


Havia no Riocentro uma multidão de 18.000 pessoas, assistindo a 
um show artístico em homenagem ao Dia do Trabalhador. No momento da eclosão - 21 h20m - cantava Elba Ramalho.


Somente, pois, não aconteceram o pânico e a histeria coletivos porque o explosivo estourou no colo do sargento. O plano visava exatamente a multidão. Tanto que uma segunda bomba explodiu alguns minutos depois na casa de força do Riocentro. Sua carga não foi suficiente para afetar os dispositivos produtores da iluminação e o show continuou sem o público ficar sabendo do que se passara. É oportuno lembrar, a propósito, que os planos de Burnier, no caso Para-Sar, também incluíam destruição de instalações de força e luz. 


Na tarde daquele dia o sargento e o capitão tinham sido vistos no restaurante Cabana da Serra, na estrada Grajaú - Jacarepaguá. Garçons suspeitaram tratar-se de assaltantes de bancos, porquanto estavam à paisana, armados e a examinar um mapa. Chamaram a polícia. Compareceram dois soldados da rádio-patrulha. Os estranhos identificaram-se como agentes da Polícia Federal. Em face disto os garçons apenas anotaram as chapas dos seus veículos, entre estes o Puma - placa OT-0279. O encontro, ali, do sargento e do capitão, viria depois a ser por este confirmado.





Guilherme e Wilson chegaram ao Riocentro faltando dois minutos para as 21 horas. O capitão pagou o bilhete de n.º 64.270 a fim de estacionar o seu carro. Às 21 h07m o comerciário João de Deus Ferreira Ramos estaciona seu Volkswagen ao lado direito do Puma chapa OT-0279 e cumprimenta seus dois ocupantes, mas nem o Sargento Rosário nem o Capitão Machado respondem. Ferreira Ramos diz ter certeza da hora exata porque já estava atrasado para o show e se confessa "um maníaco por horários". No final do show, estarrecido ao saber da explosão, ele contaria seu encontro com os dois militares. Nos dias seguintes, porém, o comerciário passaria a fugir da imprensa para não falar do caso. Mas acabou depondo.
Esse depoimento é importantíssimo porque revela que, no mínimo sete e no máximo doze minutos antes da explosão da bomba no colo do sargento, este e o capitão se encontravam no Puma, já que às 21 h15m/21 h20m, "o Capitão Wilson Luiz Chaves Machado liga o motor do seu automóvel, engata a marcha a ré e começa a sair da vaga onde estivera estacionado.


Dentro do pavilhão de espetáculos, a cantora Elba Ramalho ainda não terminou seu número; distante dali, na bilheteria do estacionamento, Tenente César Wachulec está contrariado: além de ter sido afastado da chefia de segurança, ele constata que a Polícia Militar não enviou os soldados que havia solicitado. O pátio do estacionamento está despoliciado. O carro do Capitão Machado percorre poucos metros. Mal saiu da vaga e uma bomba explode em seu Interior" . 


Aproximadamente vinte e cinco minutos depois, uma neta do Senador Tancredo Neves - Andréa Neves da Cunha, que acabara de chegar para o show, com seu noivo Sérgio Vali  - leva em seu carro o capitão para o hospital Lourenço Jorge. Mas os médicos preferem atendê-Io no Hospital Miguel Couto e o conduzem para ali. Apesar da gravidade dos ferimentos o capitão escapa.


Retratos de um Brasil que,espera-se ,não volte mais...


Fonte: CMI Brasil




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