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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Casa de Detenção - Rio de Janeiro, 12/8/1936






Dª. Ermelinda.
Afetuosos cumprimentos.

Conhecendo-a há bastante tempo, pelas muitas vezes que o Carlos se tem referido a seu nome, resolvi escrever-lhe, não só para lhe dar notícias nossas, como também para iniciarmos as nossas relações mais íntimas, pois tenho a esperança que nós ainda nos encontraremos e mesmo que a senhora irá conhecer o seu bisneto.

Quero dar-lhe notícias nossas, somente as principais, pois será difícil descrever-lhe todos os incidentes dos nossos longos meses de prisão. Numa das vezes em que fui chamada à Polícia Central, o Dr. Belens Porto, encarregado do inquérito, me disse que a Senhora havia escrito uma carta ao Carlos. Não sei, porém, se tal carta terá chegado às mãos do destinatário, nem se a Polícia terá permitido que ele respondesse.

O Carlos continua no quartel da Polícia Especial, numa incomunicabilidade completa, que já dura há mais de 5 meses. As autoridades não consentem que ele leia jornais e nem mesmo livros. Ele se encontra isolado, numa sala, a porta daquela ficando sempre aberta, para permitir aos guardas uma vigilância permanente. – A Senhora poderá bem imaginar quanta energia deve custar ao Carlos enfrentar todas estas torturas morais. – Talvez os antigos companheiros e amigos do Carlos possam auxiliar no sentido de que pelo menos livros e revistas lhe sejam entregues.

Da Europa, D. Leocadia já me escreveu, mas sob o pretexto de minha incomunicabilidade, a Polícia impediu a entrega da carta, como também não tive a possibilidade de escrever-lhe. Soube, porém, que ela tem desenvolvido uma grande atividade no sentido da defesa do Carlos.

Quanto a mim, estou, nestes últimos tempos, mais confortada pela presença de várias companheiras de prisão, que já se tornaram minhas amigas. No começo estive também incomunicável. Ultimamente, porém, fui transferida para a sala das mulheres, presas políticas, na Casa da Detenção. Assim é que vim a conhecer entre outras, a Rosa, irmã do Silo, e a Maria Werneck, cujo marido está também preso e que descende de uma família gaúcha.
De saúde, tenho tido bastantes abalos, provocados de um lado pela gravidez (agora já no sétimo mês) devido às condições da prisão, como ainda mais pelas aflições que me dá a inquietude sobre o estado do Carlos. Até hoje e depois da nossa prisão não tive a possibilidade de vê-lo e só recebi algumas cartas dele, em que falava do nosso filho e das providências relativas à nossa defesa.

Corre um processo de expulsão contra mim, por ter eu nascido no estrangeiro. Numa de suas cartas o Carlos comenta este passo do Governo da seguinte maneira: “Tu compreendes que o teu processo de expulsão é a forma jurídica encontrada pelo atual governo para tornar efetivo mais um ato de perseguição política contra mim... Preciso assistir com coragem aos golpes que, impotentes para assestarem diretamente contra mim, dirigem contra as pessoas a quem dedico o meu maior afeto.”

Enfrentando tais perseguições absurdas e diante dos golpes da reação, asseguro à Senhora que, com a mesma coragem com que anteriormente acompanhei o Carlos na luta, mostrar-me-ei, agora, digna do nome dele.

A respeito da minha expulsão, estou confiante que a simpatia pública impeça este ato completamente fora da lei e espero que darei à luz ao filho do Carlos aqui em terra brasileira.
Era o que de essencial eu tinha a dizer nessa primeira carta, que lhe escrevo.
Queira receber um afetuoso abraço de sua neta Maria**



                                       (Olga Benário)


*Carta escrita na Casa de Detenção (RJ), onde Olga estava presa desde março de 1936, antes de ser extraditada para a Alemanha nazista pelo governo de Getúlio Vargas, em setembro daquele ano, no sétimo mês de gravidez.

**Olga nunca reconheceu, perante a polícia, seu verdadeiro nome e sua verdadeira nacionalidade; com firmeza revolucionária, reafirmou sempre o nome que constava no passaporte - Maria Vilar.
Arquivo Alfredo Felizardo (RS)


FONTE: Instituto Luiz Carlos Prestes








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