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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Humor Brasileiro Ladeira Abaixo




Chico Anysio era o cara. Criou centenas de personagens, bolou um formato inovador para interagir com todos eles em um só programa, e ainda era um mestre em stand-up comedy.

Houve outros. Gente muito talentosa tal qual Juca Chaves, Sérgio Rabello, José Vasconcellos... Mas ninguém conseguiu superá-lo. E nos dias atuais, a nova safra parece muito aquém da categoria de Anysio.

Rafinha Bastos, Léo Lins, Murilo Couto, Diogo Portugal e Danilo Gentili fazem parte de uma nova geração que não saca a diferença entre humor inteligente e humor lata de lixo. Confundem referências, com preconceitos. Ofendem em troca de algumas risadas. A maioria deles não tem um currículo decente. Murilo era coadjuvante em Malhação. São adolescentes que atuam no mundo de adultos. Acham que o rótulo que tinham na fase da puberdade ("são engraçadinhos") os credencia a ficar em frente a uma platéia de centenas de pessoas e ofendê-las em tempo integral. Seja uma agressão verbal direta, ou apenas às suas respectivas inteligências. A verve que eles pensam ter vale muito pouco no mundo atual. Ser "engraçadinho" não é algo que ponha esses comediantes no rol dos talentosos, sequer vai alçá-los a condição de gênios. 


São "curtidos" nas redes sociais e, como tal, pode-se ver que a média de idade de seus seguidores beira os 17 anos. São seguidos por uma legião de pessoas; seus vídeos no Youtube tem milhões de visualizações. Mas conteúdo, mesmo, escasso. Muito pouco para se ter uma visão mais ampla de mundo e entender que fazer rir é uma arte, e não uma ação aleatória baseada em constrangimento público e grosseria verbal. Mas o que a molecada gosta é dos palavrões. Isso é divertido. Juca Chaves também os usava à exaustão, mas com fina provocação à sociedade conservadora e sempre no momento certo e na hora certa. O timming  é tudo nessas horas. Assim como o talento.

No Multishow tem uma versão brasileira do besteirol americano Comedy Central - the Roast. Chama-se Fritada. Se o original que é apresentado por Charlie Sheen ou por Seth MacFarlane (criador de Ted e Family Guy) ainda tem uma boa sacada aqui ou acolá,  a versão nacional beira o ridículo, tamanha pretensão de forçar a graça. Por lá já passaram Diogo Portugal e Murilo Couto, nada que credencie o canal a manter a "atração".




O superestimado Rafinha Bastos é um exemplo de alguém que se tornou referência no humor, sem ter graça. Com uma tirada ou outra de efeito fez seu nome no outrora engraçado CQC. Mas bastou proferir a célebre frase cafajeste que o jogou ao purgatório para ver a maré virar. Quando Marcelo Tas, seu colega de programa,  mencionou que a cantora Wanessa Camargo estava uma gracinha grávida, Bastos replicou: "Eu comeria ela e o bebê".

Foi justamente processado, perdeu o emprego na Band e amargou dificuldades com seus projetos paralelos. Resultado: teve que voltar para a antiga emissora, se arrastando. Lembrando que é dele também a "pérola" sobre a violência sexual contra as mulheres: "Toda mulher que vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra c... Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade." Lembrou o Palo Maluf quando proferiu a canalha sentença: "tá bom, tá com vontade sexual, estupra mas não mata". Talvez ele tenha sido a inspiração pro Rafinha.




Danilo Gentili é bem mais emblemático. Conseguiu sair do CQC e ganhar seu próprio talk show. Até consegue se sair bem eventualmente, mas consegue se enveredar por caminhos tortuosos ao fazer comédia, e depois corre pra se esconder atrás da "liberdade de expressão". Já satirizou os judeus, os negros, as mulheres, os gays...Sempre com a desculpa da licença poética. Mas sempre há um momento que se vai longe demais.

Como Esse:
"Mais um recorde brasileiro no Guinness Book. Uma pernambucana doou mais de 300, eu disse 300, litros de leite. [...] Em termos de doação de leite, ela já tá quase alcançando o Kid Bengala", disse Gentili no programa. Uma foto de Michele foi exibida e Marcelo Mansfield, colega de palco de Gentili, afirmou "gente, isso não é uma espanhola. É uma América Latina inteira". A foto dela foi exibida novamente e Gentili falou: "está ela em cima, Plutão e Saturno logo abaixo". Em seguida, ele disse "depois de ela ver que não ia ganhar nada doando leite, ela resolveu vender" e é mostrada uma montagem de uma embalagem de Leite Moça, com a imagem de Michele e a frase "Leite da Moça".




Depois dessa, Michele decidiu não mais ajudar as pessoas, devido aos problemas que tem enfrentado (foi alvo de piadas grosseiras em sua cidade e via redes sociais) e que vai processar a Band e Gentili. Leia mais AQUI.

Tamanha a falta de criatividade faz com que se coloque em xeque a capacidade de Danilo em criar piadas minimamente inteligíveis. Porque apelar para a vulgaridade gratuita é fácil e não significa ter graça. Mostra que o humor brasileiro atravessa dias de tormenta criativa.

Tá certo, ter ideias a todo o tempo, bolar material e se manter antenado sobre tudo e todos deve ser exaustivo prum cara que vive de stand-up comedy. Mas talvez seja esse o problema. O comediante fica pilhado por querer falar sobre vários assuntos e acaba perdendo a espontaneidade. 

Na dúvida é melhor ficar com o básico. Jerry Seinfeld ensinou isso em sua famosa e genial sitcom, que leva seu sobrenome. Quando perguntado sobre o que era a série, ele respondia de maneira casual: "é sobre o nada". Esse "nada acabou mudando os rumos da TV americana (no caso a NBC) e se tornou referência para as outras concorrentes. 

Talvez esse seja o caminho para o humor brasileiro; Falar sobre o nada. Porque já falou sobre quase tudo e ainda não acertou o caminho.



Leia também:

PARA MUITOS MARMANJOS QUE SE ACHAM "O TAL"...



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