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domingo, 17 de junho de 2012

UMA PAIXÃO (??) CHAMADA FUTEBOL




   Lembro ainda hoje a última vez em que torci por um time de futebol.Foi em 2000.E mesmo depois de uma conquista comecei a me perguntar “e aí,o que vem depois?”.Afinal o time ganhou,mas eu não.Os jogadores são( e continuariam após aquela conquista) milionários.O time perdendo ou ganhando,não mudaria minha rotina de ter que levantar cedo no dia seguinte e ir a para o trabalho.Enfim,a vida continua,com vitória ou derrota.Para muitos,a segunda foi melhor com o sucesso da equipe,mas quando você condiciona seu humor ou o seu ritmo de vida à vitórias ou insucessos de seu time favorito,então tem alguma coisa errada com sua vida.



   Isso me fez reavaliar muitas coisas e enxergar outras por um outro prisma.E olha que desistir de torcer a favor do meu time(como se fosse meu...) não foi tão difícil quanto imaginei que seria.Já tinha parado de torcer para a seleção brasileira de futebol desde a Copa de 1998.Foi uma sensação interessante torcer pelo time de azul,na final do que o de amarelo(sim,porque tem que ser muito ingênuo e/ou alienado pra afirmar que ali era a pátria de chuteiras,que era o Brasil contra a França).Primeiro ponto.Se fosse a Pátria,então os jogadores deveriam ser convocados para defender o país(!!) e sem cobrar uma fortuna por isso.A CBF(que como diz o jornalista Juca Kfouri é a Casa Bandida de Futebol)não poderia cacifar milhões e milhões com o evento,afinal é pela pátria.E segundo,TODAS s emissoras de televisão poderiam e deveriam transmitir o evento (ou,na pior das hipóteses,só as emissoras educativas,afinal é a pátria).Ao comentar certa vez com um colega que eu ‘torcia contra’ a seleção brasileira,ele se irritou e disse que isso não era coisa de patriota,de brasileiro.Simplesmente lhe perguntei :”em quem você votou nas últimas eleições?”,e ele “sei lá,não me lembro;não gosto e nem me interesso por política!”.Taí o argumento típico de pessoas que tem percepção diferente de cidadania.Para uns,é torcer pela “seleção canarinho” durante a copa;para outros exercer seu direito legítimo de votar(porque deveria ser encarado como um direito inalienável)entender de política,ser participativo e cobrar as autoridades em caso de eventual desmando ou prevaricação,ou até improbidade. Claramente,diferentes  propósitos e metas.Futebol tem sido usado como arma de manipulação há vários anos e as pessoas nem percebem.

Durante o malfadado governo Sarney,houve muita polêmica a respeito de qual seria a duração de seu mandato.A maioria do Congresso queria quatro anos;Sarney,por sua vez queria seis.Depois de muita negociação nos bastidores ficou acertado que seria de cinco anos,seu mandato e os próximos fossem de quatro anos.E não foi coincidência,já que essa manobra faria as eleições presidenciais caírem em ano de Copa do Mundo.É o sonho de consumo dos políticos que a seleção brasileira vá bem no torneio,de preferência conquiste o título,para que o humor do brasileiro fique nas alturas e não perceba as coisas erradas que assolam este país (miséria,desigualdade,falta de escolas e hospitais,criminalidade altíssima).Durante o regime militar,os usurpadores verde-oliva chamaram o futebol de “o ópio do povo”.Com razão.A própria conquista da seleção,na Copa de 70 foi usada como forma de desviar a atenção da sociedade das monstruosidades que ocorriam nos porões pelos quartéis,Brasil afora.

   Voltando ao cenário atual.Hoje,o que poderia ser um hobby ou um lazer de fim de semana(e futebol é SÓ isso,um entretenimento)se tornou um risco mortal.Com grupos paramilitares(conhecidos como torcidas organizadas) tomando de assalto as ruas das grandes cidades fica impossível acompanhar in loco o time do coração com a família.Muitos jovens perdidos emocionalmente acabam se juntando às fileiras desses grupelhos liderados por bandidos,buscando muitas vezes se encontrar,fazer parte de algo e,num momento de incerteza,eis que acham que se filiar a um grupo de torcedores fará com que se sinta pertencendo à alguma coisa.Cheguei acompanhar uma reportagem da TV Gazeta onde um jovem dizia que aquele grupo (havia mais de 200 pessoas perto dele)era a verdadeira família dele.Soma-se a isso,aqueles olhares vidrados dos torcedores nos estádios,como se estivessem dopados,esbravejando a cada lance errado do time e podemos entender que a irracionalidade pura impera nesse meio.Consegue imaginar pessoas que tem um vida (segundo elas mesmas) limitada,se sentindo frustradas,mal resolvidas,buscando redenção em um jogador,em um clube,em uma seleção?E quando essa redenção não acontece (a vitória,a conquista,subjulgar o time adversário)a frustração reaparece com força total,canalizando seus desequilíbrios e seus recalques nos jogadores do clube que ele torce(e que ele diz amar)?!?Quantas vezes já acompanhamos reportagens em que jogadores são perseguidos,agredidos,emboscados...E tudo porque?Para que o “torcedor” possa ter sua vingança contra o mundo que não o entende.

   Não me entenda mal.Aprecio o futebol como um todo(não que eu consiga ficar quase duas horas em frente ao televisor para ver uma partida).Tem suas nuances e admiro quem o faça bem,com decência e que saiba “dar espetáculo”.Muitas vezes já acompanhei o time do Barcelona (que se encaixa na descrição que fiz)fazendo partidas interessantes.Mas até nesse caso,a comparação não parece justa.Para os torcedores da equipe, o Barcelona é mais que um time pois representa a ânsia de emancipação do povo da Catalunha.Estes torcedores não se consideram espanhóis e sim catalães;não gostam de falar espanhol e sim catalão.E sonham com o dia em que isso se tornará realidade.Esse ideário passa,necessariamente,pelo time.Em casos como este,o futebol tem serventias,ou como prática esportiva saudável,sem se tornar algo passional.Se fosse sempre assim,então o futebol poderia ter muito mais utilidade do que ser apenas ser usado como massa de manobra pra desviar o foco das coisas realmente importantes,fazendo com que as massas permaneçam na mais completa ignorância.




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